Decidi parar de pensar. Decidi parar de pensar e de falar. Depois ainda estabeleci metas: acordar mais cedo, comer mais cenoura, dar bom dia à vizinhança, ouvir menos Coldplay e tomar mais leite.
Chega de ficar imaginando como ele chegaria pra me dizer "e aí? tudo bem? eu te amo!"
Pra quem sempre preferiu voar, recolocar os pés no chão é uma dádiva. Preciso manter contato com a terra - só pra variar.
Penso que enquanto eu fico achando que o sorriso dele é tão lindo que poderia iluminar uma cidade inteira, eu poderia cuidar mais do meu.
Necessito desesperadamente de alegria. Ou melhor, alegria não: euforia! Quero voltar a ler, quero dar risada do sarcasmo do House, quero assistir "Casablanca" sem sentir que me falta algo, quero andar por aí no fim da tarde só porque assim eu me sinto mais parte do universo. Aliás, por que diabos eu não olho mais pros ipês da esquina de cima? Eu costumava fazer isso. O cheiro deles me lembra de como ter paz - e eu quero paz. Quero qualquer coisa que me faça voltar a dormir com aquele cansaço típico de quem foi feliz demais pra pensar em algo melhor depois que apoia a cabeça no travesseiro.
"Supere isso e, se não puder superar, supere o vício de falar a respeito", aconselhou Maryan Keyes, uma santa.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Quem inventou o amor? Me explica por favor?
Não sei mais do que se trata esse tal de amor e honestamente desisti de entender. Falei pra melhor amiga que não pode ser amor e ela insistiu em discordar, mesmo sem uma boa teoria. Mas me diz: como pode ser amor se eu sequer tremo? Achei que esse fosse o grande sintoma. Achei que queimar o arroz, encher a comida de sal, caminhar por aí só pra pensar, ouvir aquela música brega, rir sozinha, prestar atenção nos detalhes, consumir a presença, exercitar a imaginação e ativar a memória olfativa fossem NADA perto da tremedeira. O bom não é isso? Sentir o frio na barriga, a ansiedade, querer chorar, gritar, rir... tudo ao mesmo tempo?
A voz dele não me provoca grandes sensações e eu não quero que ele se mude pra minha vida. Pode deixar as malas no corredor. Mas quando ele chega eu fico a implorar: Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim porque eu estou aqui, esmagada pela sua presença, pedindo pelo teu olhar.
E aí, se ele não olha, se torna amor. Porque o meu amor é assim. É álcool na ferida. Rápido e excruciante. É instantâneo - me arrebata e me deixa na velocidade da luz. Mas se não é amor, o que mais pode ser?
Você que inventou o amor... me explica por favor?
A voz dele não me provoca grandes sensações e eu não quero que ele se mude pra minha vida. Pode deixar as malas no corredor. Mas quando ele chega eu fico a implorar: Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim porque eu estou aqui, esmagada pela sua presença, pedindo pelo teu olhar.
E aí, se ele não olha, se torna amor. Porque o meu amor é assim. É álcool na ferida. Rápido e excruciante. É instantâneo - me arrebata e me deixa na velocidade da luz. Mas se não é amor, o que mais pode ser?
Você que inventou o amor... me explica por favor?
sábado, 19 de junho de 2010
As loucas
Nós, mulheres modernas, somos mesmo loucas. Onde já se viu praticar tanto essa coisa estranha tradicionalmente chamada de “pensar”? Deixa estar, let it be, vá comprar um brilho novo, deixe de ser complexada: é assim que se vive.
Pra que sentir saudade? Sentir saudade é colocar as algemas, é comprar o vestido de casamento. Certas coisas simplesmente não podem ser ditas. Não mande aquela mensagem de texto com um “eu gosto de você”, “eu sinto a sua falta” ou “eu pensei em você hoje”. Só diga isso se você quiser que ele corra like hell. Não, não importa que você sinta isso. Não diga.
Não critique também, críticas são coisa de homem - e de homem importante, daqueles que sobem no palanque, que comentam o jogo de quarta, que sabem qual é a melhor marca de cerveja... Você: nem pense nisso. Apenas sente-se ao lado, ria de tudo, cruze as pernas e jamais, jamais pense em opinar.
Pra que defender o homossexualismo e a liberdade de expressão? Pra que abominar o aborto? Que garota chata! A coleção de inverno da Zara já chegou, a novela está no último capítulo e você deveria estar feliz. Aliás, pra que diabos chorar? É só um filme, é só um livro, é só um susto, é só a vida, é só uma mentira.
Andar de pés descalços, comer o que quer, fazer uma piada, gostar de futebol e sentar no chão também fica estritamente proibido. Jamais aja com espontaneidade. Mulheres são calculadas: calcula-se o peso, o tamanho dos peitos, da bunda, do sorriso e do cérebro. Não dá pra cozinhar, ouvir Matanza e odiar o governo.
Apenas saiba agradar, fingir e gostar de futebol na copa do mundo. Mas só veja os jogos do Brasil. Quando sair um gol, levante-se e comemore. Se não sair, faça a melhor cara de decepcionada que conseguir. Não comente um lance sequer. Não torça pra Itália. Torcer pra Itália é coisa de quem não sabe nada de futebol. É só porque os italianos são bonitos. E não, não importa que eles sejam tetra campões do mundo, que você saiba a escalação e seja capaz de explicar um impedimento. Mulher não torce. Mulher não sabe.
Não seja assim, não seja como eu. Não corra na chuva, não diga o que quer, só vá se estiver arrumada o bastante e, sobretudo, não seja feliz. Os homens teriam medo de você, medo da sua capacidade de criar e pensar, medo de serem envergonhados pelas suas habilidades. Seja boa com eles, se anule. Não se estresse, não seja humana, não se arrisque a ouvir o clássico “é TPM”. Mesmo que seja TPM, não demonstre. Existe pecado maior que se mostrar como realmente é?
Já dizia a minha querida Nicoleta: “Amélia o caramba, nós é que somos mulheres de verdade!"
Pra que sentir saudade? Sentir saudade é colocar as algemas, é comprar o vestido de casamento. Certas coisas simplesmente não podem ser ditas. Não mande aquela mensagem de texto com um “eu gosto de você”, “eu sinto a sua falta” ou “eu pensei em você hoje”. Só diga isso se você quiser que ele corra like hell. Não, não importa que você sinta isso. Não diga.
Não critique também, críticas são coisa de homem - e de homem importante, daqueles que sobem no palanque, que comentam o jogo de quarta, que sabem qual é a melhor marca de cerveja... Você: nem pense nisso. Apenas sente-se ao lado, ria de tudo, cruze as pernas e jamais, jamais pense em opinar.
Pra que defender o homossexualismo e a liberdade de expressão? Pra que abominar o aborto? Que garota chata! A coleção de inverno da Zara já chegou, a novela está no último capítulo e você deveria estar feliz. Aliás, pra que diabos chorar? É só um filme, é só um livro, é só um susto, é só a vida, é só uma mentira.
Andar de pés descalços, comer o que quer, fazer uma piada, gostar de futebol e sentar no chão também fica estritamente proibido. Jamais aja com espontaneidade. Mulheres são calculadas: calcula-se o peso, o tamanho dos peitos, da bunda, do sorriso e do cérebro. Não dá pra cozinhar, ouvir Matanza e odiar o governo.
Apenas saiba agradar, fingir e gostar de futebol na copa do mundo. Mas só veja os jogos do Brasil. Quando sair um gol, levante-se e comemore. Se não sair, faça a melhor cara de decepcionada que conseguir. Não comente um lance sequer. Não torça pra Itália. Torcer pra Itália é coisa de quem não sabe nada de futebol. É só porque os italianos são bonitos. E não, não importa que eles sejam tetra campões do mundo, que você saiba a escalação e seja capaz de explicar um impedimento. Mulher não torce. Mulher não sabe.
Não seja assim, não seja como eu. Não corra na chuva, não diga o que quer, só vá se estiver arrumada o bastante e, sobretudo, não seja feliz. Os homens teriam medo de você, medo da sua capacidade de criar e pensar, medo de serem envergonhados pelas suas habilidades. Seja boa com eles, se anule. Não se estresse, não seja humana, não se arrisque a ouvir o clássico “é TPM”. Mesmo que seja TPM, não demonstre. Existe pecado maior que se mostrar como realmente é?
Já dizia a minha querida Nicoleta: “Amélia o caramba, nós é que somos mulheres de verdade!"
domingo, 16 de maio de 2010
Há amor
Ele pensou em jogar fora toda a beleza que adquiriu durante aqueles anos e sequer exitou ao chorar: não há amor. Mas havia amor. Sempre houve. Mesmo quando não vinha de todas as partes.
Porém, se ele afirma, talvez deva explicar: e o que é amor?
Procurar a paz do outro lado da rua? Não, isso é um erro, é a beira do abismo. Esse tipo de sentimento destrói. Se não fosse por ele, a instrução errada jamais teria sido seguida. Quando ela deixou de querer voar, ele deveria ter beijado suas asas. Amor deve ser suportar quatro asas.
Mas quem vê o amor mesmo é ela. É aquele que arrepiou a espinha, que fez ele chorar. Foi o amor dela que o curou quando ele andava por aí carregando aquele olhar de guaxinim ferido. Ela sempre foi a erva, a camomila, a droga, a sensibilidade. Era ela quem sentia alguma coisa entre o estômago e o coração quando ele falava.
Ele, por outro lado, só sabia que certas coisas o faziam bem. Foi por isso que correu os dedos pelos joelhos dela. Ele sabia que ela já estava cansada de se prostrar, mas não sabia que aqueles dedos na pele é que são o amor.
É por isso que ela continua a acreditar veemente: nos olhos vermelhos dele há amor. Mesmo que o grito diga o contrário. Se ele grita, só pode ser por amor. De que outro modo ele se importaria? Ela o perdeu onze vezes só para ganhá-lo. E agora, mais uma vez, ela o perdia. Ele sempre seria guaxinim e ela queria voar pela décima segunda vez.
Porém, se ele afirma, talvez deva explicar: e o que é amor?
Procurar a paz do outro lado da rua? Não, isso é um erro, é a beira do abismo. Esse tipo de sentimento destrói. Se não fosse por ele, a instrução errada jamais teria sido seguida. Quando ela deixou de querer voar, ele deveria ter beijado suas asas. Amor deve ser suportar quatro asas.
Mas quem vê o amor mesmo é ela. É aquele que arrepiou a espinha, que fez ele chorar. Foi o amor dela que o curou quando ele andava por aí carregando aquele olhar de guaxinim ferido. Ela sempre foi a erva, a camomila, a droga, a sensibilidade. Era ela quem sentia alguma coisa entre o estômago e o coração quando ele falava.
Ele, por outro lado, só sabia que certas coisas o faziam bem. Foi por isso que correu os dedos pelos joelhos dela. Ele sabia que ela já estava cansada de se prostrar, mas não sabia que aqueles dedos na pele é que são o amor.
É por isso que ela continua a acreditar veemente: nos olhos vermelhos dele há amor. Mesmo que o grito diga o contrário. Se ele grita, só pode ser por amor. De que outro modo ele se importaria? Ela o perdeu onze vezes só para ganhá-lo. E agora, mais uma vez, ela o perdia. Ele sempre seria guaxinim e ela queria voar pela décima segunda vez.
domingo, 9 de maio de 2010
Eu gosto de você
Eu gosto de você quando você não me liga pra desejar boa noite. Eu gosto de você mesmo que você nem saiba que horas eu durmo. Eu gosto de você quando você não leva o meu mocaccino antes da aula, quando você não se importa com o meu novo corte ou quando não dá a mínima pra minha cara lavada. Eu nem gosto muito de maquiagem mesmo. E eu gosto de você quando você não sabe disso. Eu gosto quando você não me abraça e diz que volta amanhã ou que volta algum dia. Eu gosto de você quando você não vem. Eu gosto quando você não fecha os olhos, não reclama dos meus ciúmes e não segura a minha mão. Você sequer me deixa dizer que eu sou a garota mais feliz que já segurou um martini e eu sou feliz. Mas é só porque eu gosto de você e porque eu gosto de "Vanilla sky". Mas eu gosto ainda mais de você porque você nem sabe de que filmes eu gosto. Eu gosto dos seus olhos verdes. Eu gosto mais de olhos castanhos, é verdade, mas eu gosto de olhos verdes também. Eu gosto de olhos verdes porque eu gosto de você. Eu gosto mesmo de você. E eu gosto de você mais ainda quando você não sabe disso. Eu gosto de você até quando você não conhece os meus gatos - e eu gosto deles também. Mas eu gosto mais de você, porque você não sabe que eu estou doente. Você não sabe o número da minha casa e nunca entrou pela minha porta. É justamente por isso que eu gosto de você. Eu acho que só deixo de gostar de você quando me lembro que você não me conhece. Mas se conhecesse eu apertaria a sua mão e continuaria gostando de você.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
O exercício da paixão
Eu sempre quis escrever sobre maio de '68. Não porque tenha algum interesse no movimento estudantil, mas porque sempre quis falar sobre como as belas francesas empunhavam bandeiras como se fossem espadas durante a revolução, e sobre como os jovens eram arrastados pelas calçadas nas fotos de Serge Hambourg. Foi por isso que resolvi ser jornalista. Gosto de pensar que o jornalista é um contador de histórias. Ele está lá quando as coisas acontecem e depois fala do que viu. Devo dizer também que um bom jornalista nunca diz o que acha do que viu, mas faz com que as pessoas criem opiniões a partir do seu olhar.
O ano passado foi maçante. Meus jornalistas contadores de histórias interiores ficaram internados por um longo tempo. Aprendi com o meu primeiro ano de faculdade que o "fazer jornalístico" é o exercício do "não poder". Você não pode interrogar no título, não pode utilizar travessões, não pode deixar de usar o lead nas factuais, não pode usar uma série de adjetivos, não pode dar muitos rodeios... Você tem que ser preciso. Você tem que seguir um padrão.
Eu pensei em desistir e fazer cinema ou qualquer outra coisa com liberdade criativa. Só não segui em frente porque acredito no jornalismo literário e acredito que há muito o que contar sobre a realidade. Não há a necessidade de se entregar à ficção.
Tomás Eloy Martínez certa vez disse que se os jornais cada vez mais se recusam a publicar histórias vívidas, não há porque culpar a tv ou a internet por seus eventuais fracassos, e sim à sua própria falta de fé na inteligências das pessoas. Eu ainda diria mais: se os jornais não se renovam e continuam publicando matérias velhas e quadradas, é porque perderam a fé na inteligência de seus próprios repórteres. Jornalista escreve pra ser lido e não pra orgulhar a imprensa norte americana com o seu amado lead. Posso estar equivocada, mas ainda acredito que pessoas gostam de histórias. E não estou dizendo que certos textos não devam ser meramente informativos, eu estou dizendo que desistir do jornalismo que trata das pessoas é uma tremenda falta de fé e, de certa maneira, de humanidade. Simplesmente não consigo ser uma jornalista refém da globalização, dessas que tratam o relacionamento humano com tanta impessoalidade, frieza e superficialidade.
O ano passado foi maçante. Meus jornalistas contadores de histórias interiores ficaram internados por um longo tempo. Aprendi com o meu primeiro ano de faculdade que o "fazer jornalístico" é o exercício do "não poder". Você não pode interrogar no título, não pode utilizar travessões, não pode deixar de usar o lead nas factuais, não pode usar uma série de adjetivos, não pode dar muitos rodeios... Você tem que ser preciso. Você tem que seguir um padrão.
Eu pensei em desistir e fazer cinema ou qualquer outra coisa com liberdade criativa. Só não segui em frente porque acredito no jornalismo literário e acredito que há muito o que contar sobre a realidade. Não há a necessidade de se entregar à ficção.
Tomás Eloy Martínez certa vez disse que se os jornais cada vez mais se recusam a publicar histórias vívidas, não há porque culpar a tv ou a internet por seus eventuais fracassos, e sim à sua própria falta de fé na inteligências das pessoas. Eu ainda diria mais: se os jornais não se renovam e continuam publicando matérias velhas e quadradas, é porque perderam a fé na inteligência de seus próprios repórteres. Jornalista escreve pra ser lido e não pra orgulhar a imprensa norte americana com o seu amado lead. Posso estar equivocada, mas ainda acredito que pessoas gostam de histórias. E não estou dizendo que certos textos não devam ser meramente informativos, eu estou dizendo que desistir do jornalismo que trata das pessoas é uma tremenda falta de fé e, de certa maneira, de humanidade. Simplesmente não consigo ser uma jornalista refém da globalização, dessas que tratam o relacionamento humano com tanta impessoalidade, frieza e superficialidade.
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