"Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. (...) Ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um."
Caio F.
domingo, 15 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Corante
Eu queria escrever sobre o que eu sinto agora, mas parece que tudo o que poderia sair de mim, já saiu de Rodrigo Amarante ou Marcelo Camelo. É por isso que eu me afundo em Los Hermanos, cigarros e drinks desconhecidos. É por isso que eu tomo tanto chá de limão e tenho vontade de ficar lá fora, sentada no escuro, seguindo cada linha da sombra que a árvore seca faz na calçada. É o meu motivo pra dizer sim pra tudo, esperando que alguma eventualidade preencha essa falta de alguma coisa que eu só desconfio saber o que é, ou orando pra que alguém diga o que realmente sente, sem rodeios, porque fazer isso já tem me saturado o bastante.
Eu encontro arte nas manchas coloridas que as luzes dos postes e faróis fazem no asfalto molhado e no jeito das pessoas de rir. Especialmente nos meus sorrisos preferidos, aqueles tão forçados que dão rugas ao lado dos olhos. Eu procuro coisas pra me emocionar porque eu já não sei mais no que pensar. Eu costumava usar a mente pra produzir essas cenas que me congelavam o coração, mas acabei prometendo nunca mais fazer isso. Acho que pra não me desapontar, me apoiar mais na verdade ou algo assim. Não sabia que o resultado seria ficar por aí criando arte. Não é arte que me falta. É alguma coisa parecida, mas não é arte. É aquela droga de sensação que faz toda noite parecer uma cena de Jean-Pierre Jeunet. Aquele sentimento estranho que deixa as coisas mais lentas, mais laranjas, mais distorcidas.
Estou tão certa de estar longe de todas as respostas que a minha cor do momento é branco. Faltou corante.
Eu encontro arte nas manchas coloridas que as luzes dos postes e faróis fazem no asfalto molhado e no jeito das pessoas de rir. Especialmente nos meus sorrisos preferidos, aqueles tão forçados que dão rugas ao lado dos olhos. Eu procuro coisas pra me emocionar porque eu já não sei mais no que pensar. Eu costumava usar a mente pra produzir essas cenas que me congelavam o coração, mas acabei prometendo nunca mais fazer isso. Acho que pra não me desapontar, me apoiar mais na verdade ou algo assim. Não sabia que o resultado seria ficar por aí criando arte. Não é arte que me falta. É alguma coisa parecida, mas não é arte. É aquela droga de sensação que faz toda noite parecer uma cena de Jean-Pierre Jeunet. Aquele sentimento estranho que deixa as coisas mais lentas, mais laranjas, mais distorcidas.
Estou tão certa de estar longe de todas as respostas que a minha cor do momento é branco. Faltou corante.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Cotidiano
O sol foi surgindo gradualmente e os meus olhos passaram a se comprimir na mesma medida. Era o peso da luz acordando o meu sono.
Observei as cortinas que eram movidas pelo vento que apagava a fumaça saída da tua xícara e o som uniforme dos grilos foi se esgotando. Me lembrei de como costumava reproduzir esse mesmo som quando o silêncio se instalava depois de uma das suas perguntas impetuosas. Mas pela manhã a calma impera.
Eu me sentia tão esmagada que meus ossos gritavam por socorro, mas apesar de parecer que eu havia corrido uma maratona a minha dor não havia sido causada pelo esforço físico. Era uma dor prazerosa. Era felicidade, porque eu sobrevivi à mais uma noite com você, fazendo com que pela manhã só restasse a tua voz rouca, vencida pelo cansaço, e duas mãos inquietas que se movimentavam num esforço inútil, tentando explicar o inexplicável. Acho que Wayne Coyne estava com a razão no rádio do táxi que me levou até você pela primeira vez. Cheguei a pensar que todos os poemas, padrões e raças cujo mundo foi tragado pelo mar, de Neil Gaiman, não faziam o menor sentido porque você deixava o mundo todo azul-celeste quando torcia os lábios, lutando contra o seu melhor sorriso: o que teima em se abrir quando me chama pelo nome.
O sol brilhou mais forte e meus olhos se fecharam por alguns segundos. Sua respiração se tornou mais pesada e próxima. Perto de você o planeta é uma pequena ilha.
E assim se passou um quarto da manhã.
Observei as cortinas que eram movidas pelo vento que apagava a fumaça saída da tua xícara e o som uniforme dos grilos foi se esgotando. Me lembrei de como costumava reproduzir esse mesmo som quando o silêncio se instalava depois de uma das suas perguntas impetuosas. Mas pela manhã a calma impera.
Eu me sentia tão esmagada que meus ossos gritavam por socorro, mas apesar de parecer que eu havia corrido uma maratona a minha dor não havia sido causada pelo esforço físico. Era uma dor prazerosa. Era felicidade, porque eu sobrevivi à mais uma noite com você, fazendo com que pela manhã só restasse a tua voz rouca, vencida pelo cansaço, e duas mãos inquietas que se movimentavam num esforço inútil, tentando explicar o inexplicável. Acho que Wayne Coyne estava com a razão no rádio do táxi que me levou até você pela primeira vez. Cheguei a pensar que todos os poemas, padrões e raças cujo mundo foi tragado pelo mar, de Neil Gaiman, não faziam o menor sentido porque você deixava o mundo todo azul-celeste quando torcia os lábios, lutando contra o seu melhor sorriso: o que teima em se abrir quando me chama pelo nome.
O sol brilhou mais forte e meus olhos se fecharam por alguns segundos. Sua respiração se tornou mais pesada e próxima. Perto de você o planeta é uma pequena ilha.
E assim se passou um quarto da manhã.
domingo, 11 de julho de 2010
Dois
(Foto Ela usou o vestido como se fosse sábado, como se fosse verão, como se tivesse recebido flores pela manhã.
Ele segurou as mãos dela como se fossem um mistério e achou difícil acreditar: ainda bastava que ela caminhasse ao lado.
Eles subiram uma colina e descobriram que tinham algo a dizer. Era dia de matar. Deixaram a noite cair sem que se ouvisse um só som. Começaram a escorregar.
O tempo correu, o dia acabou, os segredos estão lacrados.
Agora jogue a moeda, marque a hora, deixe chover. Não importa, o mundo acabou.
Mãos sempre são mistérios.
(Totalmente baseado em Jack and Jill - Katie Herzig)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Parei
Decidi parar de pensar. Decidi parar de pensar e de falar. Depois ainda estabeleci metas: acordar mais cedo, comer mais cenoura, dar bom dia à vizinhança, ouvir menos Coldplay e tomar mais leite.
Chega de ficar imaginando como ele chegaria pra me dizer "e aí? tudo bem? eu te amo!"
Pra quem sempre preferiu voar, recolocar os pés no chão é uma dádiva. Preciso manter contato com a terra - só pra variar.
Penso que enquanto eu fico achando que o sorriso dele é tão lindo que poderia iluminar uma cidade inteira, eu poderia cuidar mais do meu.
Necessito desesperadamente de alegria. Ou melhor, alegria não: euforia! Quero voltar a ler, quero dar risada do sarcasmo do House, quero assistir "Casablanca" sem sentir que me falta algo, quero andar por aí no fim da tarde só porque assim eu me sinto mais parte do universo. Aliás, por que diabos eu não olho mais pros ipês da esquina de cima? Eu costumava fazer isso. O cheiro deles me lembra de como ter paz - e eu quero paz. Quero qualquer coisa que me faça voltar a dormir com aquele cansaço típico de quem foi feliz demais pra pensar em algo melhor depois que apoia a cabeça no travesseiro.
"Supere isso e, se não puder superar, supere o vício de falar a respeito", aconselhou Maryan Keyes, uma santa.
Chega de ficar imaginando como ele chegaria pra me dizer "e aí? tudo bem? eu te amo!"
Pra quem sempre preferiu voar, recolocar os pés no chão é uma dádiva. Preciso manter contato com a terra - só pra variar.
Penso que enquanto eu fico achando que o sorriso dele é tão lindo que poderia iluminar uma cidade inteira, eu poderia cuidar mais do meu.
Necessito desesperadamente de alegria. Ou melhor, alegria não: euforia! Quero voltar a ler, quero dar risada do sarcasmo do House, quero assistir "Casablanca" sem sentir que me falta algo, quero andar por aí no fim da tarde só porque assim eu me sinto mais parte do universo. Aliás, por que diabos eu não olho mais pros ipês da esquina de cima? Eu costumava fazer isso. O cheiro deles me lembra de como ter paz - e eu quero paz. Quero qualquer coisa que me faça voltar a dormir com aquele cansaço típico de quem foi feliz demais pra pensar em algo melhor depois que apoia a cabeça no travesseiro.
"Supere isso e, se não puder superar, supere o vício de falar a respeito", aconselhou Maryan Keyes, uma santa.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Quem inventou o amor? Me explica por favor?
Não sei mais do que se trata esse tal de amor e honestamente desisti de entender. Falei pra melhor amiga que não pode ser amor e ela insistiu em discordar, mesmo sem uma boa teoria. Mas me diz: como pode ser amor se eu sequer tremo? Achei que esse fosse o grande sintoma. Achei que queimar o arroz, encher a comida de sal, caminhar por aí só pra pensar, ouvir aquela música brega, rir sozinha, prestar atenção nos detalhes, consumir a presença, exercitar a imaginação e ativar a memória olfativa fossem NADA perto da tremedeira. O bom não é isso? Sentir o frio na barriga, a ansiedade, querer chorar, gritar, rir... tudo ao mesmo tempo?
A voz dele não me provoca grandes sensações e eu não quero que ele se mude pra minha vida. Pode deixar as malas no corredor. Mas quando ele chega eu fico a implorar: Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim porque eu estou aqui, esmagada pela sua presença, pedindo pelo teu olhar.
E aí, se ele não olha, se torna amor. Porque o meu amor é assim. É álcool na ferida. Rápido e excruciante. É instantâneo - me arrebata e me deixa na velocidade da luz. Mas se não é amor, o que mais pode ser?
Você que inventou o amor... me explica por favor?
A voz dele não me provoca grandes sensações e eu não quero que ele se mude pra minha vida. Pode deixar as malas no corredor. Mas quando ele chega eu fico a implorar: Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim. Olha pra mim porque eu estou aqui, esmagada pela sua presença, pedindo pelo teu olhar.
E aí, se ele não olha, se torna amor. Porque o meu amor é assim. É álcool na ferida. Rápido e excruciante. É instantâneo - me arrebata e me deixa na velocidade da luz. Mas se não é amor, o que mais pode ser?
Você que inventou o amor... me explica por favor?
sábado, 19 de junho de 2010
As loucas
Nós, mulheres modernas, somos mesmo loucas. Onde já se viu praticar tanto essa coisa estranha tradicionalmente chamada de “pensar”? Deixa estar, let it be, vá comprar um brilho novo, deixe de ser complexada: é assim que se vive.
Pra que sentir saudade? Sentir saudade é colocar as algemas, é comprar o vestido de casamento. Certas coisas simplesmente não podem ser ditas. Não mande aquela mensagem de texto com um “eu gosto de você”, “eu sinto a sua falta” ou “eu pensei em você hoje”. Só diga isso se você quiser que ele corra like hell. Não, não importa que você sinta isso. Não diga.
Não critique também, críticas são coisa de homem - e de homem importante, daqueles que sobem no palanque, que comentam o jogo de quarta, que sabem qual é a melhor marca de cerveja... Você: nem pense nisso. Apenas sente-se ao lado, ria de tudo, cruze as pernas e jamais, jamais pense em opinar.
Pra que defender o homossexualismo e a liberdade de expressão? Pra que abominar o aborto? Que garota chata! A coleção de inverno da Zara já chegou, a novela está no último capítulo e você deveria estar feliz. Aliás, pra que diabos chorar? É só um filme, é só um livro, é só um susto, é só a vida, é só uma mentira.
Andar de pés descalços, comer o que quer, fazer uma piada, gostar de futebol e sentar no chão também fica estritamente proibido. Jamais aja com espontaneidade. Mulheres são calculadas: calcula-se o peso, o tamanho dos peitos, da bunda, do sorriso e do cérebro. Não dá pra cozinhar, ouvir Matanza e odiar o governo.
Apenas saiba agradar, fingir e gostar de futebol na copa do mundo. Mas só veja os jogos do Brasil. Quando sair um gol, levante-se e comemore. Se não sair, faça a melhor cara de decepcionada que conseguir. Não comente um lance sequer. Não torça pra Itália. Torcer pra Itália é coisa de quem não sabe nada de futebol. É só porque os italianos são bonitos. E não, não importa que eles sejam tetra campões do mundo, que você saiba a escalação e seja capaz de explicar um impedimento. Mulher não torce. Mulher não sabe.
Não seja assim, não seja como eu. Não corra na chuva, não diga o que quer, só vá se estiver arrumada o bastante e, sobretudo, não seja feliz. Os homens teriam medo de você, medo da sua capacidade de criar e pensar, medo de serem envergonhados pelas suas habilidades. Seja boa com eles, se anule. Não se estresse, não seja humana, não se arrisque a ouvir o clássico “é TPM”. Mesmo que seja TPM, não demonstre. Existe pecado maior que se mostrar como realmente é?
Já dizia a minha querida Nicoleta: “Amélia o caramba, nós é que somos mulheres de verdade!"
Pra que sentir saudade? Sentir saudade é colocar as algemas, é comprar o vestido de casamento. Certas coisas simplesmente não podem ser ditas. Não mande aquela mensagem de texto com um “eu gosto de você”, “eu sinto a sua falta” ou “eu pensei em você hoje”. Só diga isso se você quiser que ele corra like hell. Não, não importa que você sinta isso. Não diga.
Não critique também, críticas são coisa de homem - e de homem importante, daqueles que sobem no palanque, que comentam o jogo de quarta, que sabem qual é a melhor marca de cerveja... Você: nem pense nisso. Apenas sente-se ao lado, ria de tudo, cruze as pernas e jamais, jamais pense em opinar.
Pra que defender o homossexualismo e a liberdade de expressão? Pra que abominar o aborto? Que garota chata! A coleção de inverno da Zara já chegou, a novela está no último capítulo e você deveria estar feliz. Aliás, pra que diabos chorar? É só um filme, é só um livro, é só um susto, é só a vida, é só uma mentira.
Andar de pés descalços, comer o que quer, fazer uma piada, gostar de futebol e sentar no chão também fica estritamente proibido. Jamais aja com espontaneidade. Mulheres são calculadas: calcula-se o peso, o tamanho dos peitos, da bunda, do sorriso e do cérebro. Não dá pra cozinhar, ouvir Matanza e odiar o governo.
Apenas saiba agradar, fingir e gostar de futebol na copa do mundo. Mas só veja os jogos do Brasil. Quando sair um gol, levante-se e comemore. Se não sair, faça a melhor cara de decepcionada que conseguir. Não comente um lance sequer. Não torça pra Itália. Torcer pra Itália é coisa de quem não sabe nada de futebol. É só porque os italianos são bonitos. E não, não importa que eles sejam tetra campões do mundo, que você saiba a escalação e seja capaz de explicar um impedimento. Mulher não torce. Mulher não sabe.
Não seja assim, não seja como eu. Não corra na chuva, não diga o que quer, só vá se estiver arrumada o bastante e, sobretudo, não seja feliz. Os homens teriam medo de você, medo da sua capacidade de criar e pensar, medo de serem envergonhados pelas suas habilidades. Seja boa com eles, se anule. Não se estresse, não seja humana, não se arrisque a ouvir o clássico “é TPM”. Mesmo que seja TPM, não demonstre. Existe pecado maior que se mostrar como realmente é?
Já dizia a minha querida Nicoleta: “Amélia o caramba, nós é que somos mulheres de verdade!"
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